Não bastasse o impulso sexual incontrolável, as mulheres que sofrem de ninfomania ainda têm de lidar com o preconceito que cerca o distúrbio.
O desejo sexual feminino vive cercado de preconceitos. Mesmo com toda a evolução na relação entre sexos e uma relativa igualdade, ainda é comum ouvir críticas às mulheres que desejam muito sexo. Se uma mulher quer transar mais que seu parceiro, ela é logo taxada de ninfomaníaca. Mas será que as pessoas realmente sabem o que é a ninfomania quando usam esse adjetivo?
Ninfomania é o nome pelo qual é conhecido o Impulso Sexual Excessivo, distúrbio sexual que se caracteriza pela necessidade de sexo em demasia. Nesse assunto, no entanto, não existe uma definição precisa do que seria excessivo. Segundo a Dra. Carmita Abdo, fundadora do Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria da USP, pode ser considerado como excesso todo tipo de atividade que compromete o cotidiano, retirando tempo e energia das demais atividades.
É exatamente isso que acontece com a ninfomaníaca; ela sente uma necessidade incontrolável de manter relações sexuais para obter prazer, algo que pode ser comparado ao vício por álcool. As mulheres afetadas pelo distúrbio querem fazer sexo quase o tempo todo, muito mais do que as outras mulheres, e não conseguem controlar essa vontade.
As pessoas com o distúrbio manifestam-no desde antes de ter contato com a prática sexual, na adolescência, quando têm um interesse pelo sexo maior que o das outras meninas. As ninfomaníacas também tendem a se masturbar com uma freqüência acima do normal quando estão em situações em que não conseguem ter relações com um parceiro.
É interessante notar que quem sofre de ninfomania não busca o orgasmo, mas simplesmente o sexo por prazer. Muitas dessas mulheres, inclusive, encontram maior dificuldade para chegar ao ápice do prazer sexual, pois a realização do sexo simplesmente por sexo exclui elementos que contribuem para o orgasmo, como o clima, o sentimento pelo parceiro, a intimidade e descontração. No entanto, é errado dizer que a ninfomania gera anorgasmia, ou seja, a impossibilidade em atingir o orgasmo, ou está ligada a ela (como pensava a psicanálise antigamente), pois as ninfomaníacas, em geral, conseguem atingir o orgasmo quando a situação ajuda.
O Impulso Sexual Excessivo é doença e tem tratamento à base de remédios e psicoterapia. A mulher que notar um descontrole nos impulsos sexuais deve procurar um psicólogo ou psiquiatra, sem constrangimento. Suas causas ainda são controversas, mas é conhecido que motivos psicológicos mesclados a algum distúrbio físico podem provocar a ninfomania. Essas causas físicas raramente são hormonais (excesso de testosterona, o hormônio que estimula a sexualidade), não se sabe ao certo o que é, mas alguns pesquisadores afirmam que podem ser problemas nos neurotransmissores .
Muitas das mulheres que sofrem de ninfomania acabam tendo problemas em seus relacionamentos, pois os parceiros não conseguem acompanhar seu ritmo. Algumas procuram vários homens e têm alta rotatividade de parceiro, devido à dificuldade de manter um relacionamento com alguém que a satisfaça, o que acaba resultando em risco de gravidez indesejada e DSTs.
Os problemas causados pela doença, no entanto, podem ir muito além, afetando a vida profissional da mulher, devido ao excesso de atividade sexual que causa cansaço, atingindo seu desempenho no trabalho. Sem esquecer da angústia e sofrimento pelos quais passa a mulher ninfomaníaca, nessa busca incessante por prazer.
Há casos de mulheres que, sofrendo do distúrbio, e sem saber que ele poderia ser tratado, optaram por se prostituir, fazendo com que sua compulsão tornasse-se rentável. Algumas enfrentam problemas no trabalho por manter relações com vários dos colegas.
A questão é tratada como tabu, inclusive pelas próprias mulheres que sofrem da doença. Existe um certo preconceito em relação a mulheres que têm desejo sexual excessivo e, quando expressam seu distúrbio, podem ser tratadas pejorativamente, como safadas. Devido a esse preconceito, elas têm vergonha de assumir e procurar tratamento.
Não se sabe ao certo quantas mulheres sofrem de Impulso Sexual Excessivo; a Dra. Carmita atribui essa falta de dados ao preconceito que faz com que boa parte delas não procure tratamento e não se identifique como atingida pelo distúrbio. Mas o número de mulheres se tratando é muito pequeno, menos de uma em cem mulheres. A psiquiatra compara essa quantidade ao número de mulheres com o distúrbio oposto, a falta de desejo sexual, que atinge uma em quatro mulheres e tem muito maior procura por tratamento.
Os homens também sofrem de Impulso Sexual Excessivo, de forma semelhante, e no caso masculino, a doença é conhecida como satiríase. Uma curiosidade é que ambos os nomes, ninfomania e satiríase, vêm de personagens da mitologia grega: as ninfas, espíritos divinos, normalmente associadas à beleza, e sátiro, o ser metade homem, metade bode, que fazia parte dos cortejos de Dionísio, o deus do vinho e das festas.
(Eis a minha matéria pro trabalho final de "Edição de texto em Revistas", uma reportagem supostamente para a revista Cláudia. - e a prova científica de que não sofro do tal distúrbio! Ufa! hehehe)